
Minha pesquisa nasce do encontro entre palavra, matéria e tempo. Trabalho com o barro como campo simbólico e poético, compreendendo a terra não apenas como suporte, mas como corpo de memória e linguagem. Nesse gesto, busco uma escrita que antecede o papel — uma inscrição feita de argila, ruína e respiração.
Entendo a prática artística como uma forma de escavação. Escavar, para mim, é um verbo de criação e escuta: um modo de revelar vestígios do que foi silenciado pela história. Cada fragmento carrega em si o traço — como define Jacques Derrida —, um espaço entre presença e ausência, inscrição e apagamento.
As reflexões de autores como Vilém Flusser, Derrida e Walter Benjamin me acompanham nesse percurso. De Flusser, aprendi que toda escrita é um gesto; de Derrida, que o traço é a instabilidade constitutiva da linguagem; e de Benjamin, que a ruína pode ser um lampejo do tempo histórico — uma forma de iluminar o presente.
Entre o verbo e o fragmento, procuro construir uma escrita da terra — uma arqueologia simbólica que devolve voz ao que foi esquecido.
Trabalhar com o barro é, para mim, um ato de restituição simbólica. É permitir que a terra fale, que a matéria se torne pensamento. Cada gesto, cada fragmento, é uma tentativa de reinscrever o mundo no corpo da memória.
Minha poética dialoga com artistas como Mira Schendel e David Lynch que fizeram da palavra e da matéria campos de fricção e revelação. Mas as referências são muitas, vou deixar para citar mais nomes em outra matuta de artista.

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