Depois de muitos dias entocada, saí para ver o mundo. Que alegria!

Troquei um PF por arte e essa foi a melhor opção que eu poderia ter feito hoje. Alma muito bem nutrida pelas cores, amores e dores de Ananélia Meireles.

A exposição “Amor tem, mas acabou”, individual da artista, com curadoria de Sofia Rodrigues Barbosa, realizada pelo Vilarejo 21, na Fundação Athos Bulcão, deu uma revirada boa aqui.

As frases dos estandartes e as palavras encadeadas por Sofia ainda ecoam em mim e me fazem pensar que sou, eu mesma, uma bandeira em dia de tempestade.

A expografia e as obras vibram tão alto que roubam o olhar e invertem a lógica. Primeiro, vi as obras. Só depois de um bom tempo perdida nesse carnaval, li o texto curatorial que começa dando sentido ao vento: “Costurados a mão, ponto a ponto, revelam a tortuosidade de linhas retas Adornam com franjas, contas, lantejoulas, passamanarias e rendas, as falas de quem cuida do chão. Tecidos compõem uma paleta difícil, de contrastes e dicotomias contraditórias”.

Mas se o entendimento da exposição vai se mostrando em uma crescente, vou precisar ir ladeira abaixo para contar onde foi que esse cortejo me derrubou.

Me rendo à pesquisa de Ananelia no momento em que estou trabalhando na criação de 5 estandartes, um tipo de devoção e homenagem póstuma às que me antecederam. Um grito de resistência amorosa para escancarar que ainda estamos aqui. Projeto que parte de um lugar muito íntimo e finca voz no meu peito apaixonado.

Na esquina seguinte, é possível me ver sentada na sarjeta, tentando lidar com a percepção tardia de que minha memória não guardou espaço para frases da minha mãe. Regurgitando insegurança, vergonha e medo de não saber o que escrever no estandarte da minha mãe, encontro acolhimento e pertencimento na voz da mãe inventada por Sofia: “sorria e sobreviva”. E quem é que ousa dizer que minha mãe não falava isso? Em julho vou botar meu bloco na rua e você vai também vai entender.

Eu não apenas caibo, como sorrio no mundo inventado pela Ananélia e pela Sofia.

Com afeto,

Beatriz da Terra.

Categories:

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *