
Na ponta da mesa, a louça fina, a sopa servida com raminhos de cheiro-verde e assinatura de chef. Na outra ponta, gente esperando o caldo engrossar com a fé.
Quem serve? Quem é servido? Quem lava a panela depois do espetáculo? E quem nem chega a ver o pão ou o circo? Banquete é encenação. Tem quem assista com guardanapo de linho e tem quem olhe da janela, mastigando o cheiro. Há quem corra nu, besuntado de manteiga para entreter os convidados.
Sopa é alimento afetivo, com gostinho de lar. Mas, também, é sobra, o que resta, o que junta. Quando a sopa é rala, o mundo está denso demais.
Na sala de Proust, a sopa fumegante talvez nem seja sopa, mas uma memória líquida, capaz de devolver o tempo ao corpo, feito a madeleine que desabrocha no paladar e revela um passado guardado na dobra quente da colher.
Sopa também é silêncio no salão dourado, onde ninguém mastiga, só se desliza a colher no prato fundo e a sopa goela a baixo. Não se olha o rosto de quem está ao lado. Sopa também é a quebra de padrão onde o prato rotineiro é o silêncio da noite fria na rua.
No Banquete de Platão, sopa de letrinhas pra gente grande. O amor era o prato principal. Filósofos serviam palavras, taças se enchiam de ideias e o desejo dançava entre discursos. Mas aqui fora, quem tem fome de pão não come teoria.
Há também as galhas – e elas são muitas. Formas inchadas, nós na pele das coisas, feitas da tentativa de roubo de um outro ser. São cápsulas, defesas disfarçadas de abrigo. Marsúpios crescidos do susto, do atrito, da intrusão. Das galhas também nascem formas de vida inesperadas. Belezas que só florescem no embate entre um corpo que resiste e outro que insiste.
Só a terra sabe de tudo. Ela lembra, mesmo quando parece calada, mesmo quando a cobrem com concreto. A terra guarda. Ela sabe onde caiu o corpo, ela ouviu as palavras regadas a vinho, registrou onde não brotou alimento. Ela vê a enxada cavando mais fundo na pele de alguns. A terra é silêncio cúmplice e também grito abafado. Ela vela e revela injustiças sob o manto da paisagem, na lama tóxica, na enchente seletiva, na poeira que entra só em certas casas. A terra sabe que tragédia ambiental tem cor. E quem sente primeiro é quem já carregava nas costas o peso de muitas fomes. Sopa é metáfora de poder, de afeto e de desigualdade. Sopa é gesto e grito. Dar sopa é, também, dar espaço para a revolução esquentar.
Estou falando sobre a sopa, as galhas e a terra, a um só tempo, exumação, oferenda e colo.
Neste altar de madeira velha coberta por toalha de festa, onde o tempo borda suas rugas, as mesmas mãos que rezam, preparam a comida, servem e revelam. O ato de servir é ritual e exumação. Assim, o banquete torna-se prece, uma oferenda de vida e de morte, memória que se serve e se consome, revelando que a história dos objetos e das comidas é também a história de quem as trouxe à mesa. E a terra que toma conta de tudo é abraço de vó.
Os objetos na mesa gritam segredos antigos. Cada prato, todo caco é uma oferenda, de gratidão e de dor. As louças lascadas são testemunhas mudas de banquetes passados, de rezas murmuradas antes do primeiro gole. Colheres gastas. A comida é memória exumada do fundo da terra, onde raízes e ossos se encontram.
Meu verbo é meter uma colherada na boca como quem quer sumir o passado. Mas a colherada escava a própria alma, revela histórias, desenterra silêncios, traz à tona o que a terra guardou.
Contexto:
Texto escrito por ocasião da obra/instalação de Beatriz da Terra para exposição que será realizada no V21 entre junho e setembro de 2025.
Referências:
- PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido.
- PLATÃO. O Banquete.
- NARANJO, Patricio. Arte à Mesa: Diálogos entre Arte e Comida na América Latina.
- DIDI-HUBERMAN, Georges. A Semelhança Informe.
- ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos.
- Kyung An & Hans Ulrich Obrist. The Art of Curating (falas de curadores que tratam a curadoria como escavação e ativação de narrativas)

No responses yet