Algumas páginas desse diário são mais densas do que outras. Hoje é um desses dias em que me coloco inteira em vulnerabilidade, pra dividir algo que me acompanha feito sombra, dia após dia. 

Tenho uma dificuldade antiga de me mover com leveza nas interações sociais, de responder do jeito que realmente gostaria, especialmente quando sou atravessada pelo imprevisto. Mesmo que me perguntem sobre arte — algo tão íntimo pra mim — se o momento me pega desprevenida, me calo. Não por desinteresse, mas porque algo em mim se retrai, como quem precisa de um tempo para florescer.

Então, hoje, quero dar voz a pensamentos que ficaram guardados. Coisas que tantas vezes desejei dizer, mas que na hora não consegui — por medo, por bloqueio…Travei.

Entendo seu ponto de vista. Mas… 

A arte contemporânea costuma propor mais perguntas do que respostas. Às vezes, o que parece simples carrega profundezas: camadas de tempo, sociedade, memória e o próprio gesto de criar.

Essa obra faz parte de uma linhagem da arte que questiona a ideia de que ela precisa ser técnica ou realista. Isso nem é novidade.

É curioso como essa frase ainda ecoa: ‘isso qualquer um poderia fazer’. Talvez o mais instigante esteja aí — nesse desconforto. Por que esperamos que a arte seja sempre distante, técnica, inalcançável?

O que torna a obra singular não é apenas sua execução, mas a intenção, o contexto, a história que a sustenta. 

Claro, o gosto pessoal é legítimo.

Escrever isso me expõe, mas também me cura um pouco. Porque eu sei que não estou só. Tem gente que também se cala na hora errada, que também sente o corpo travar quando queria dançar com as palavras. Gente que carrega respostas inteiras no peito, mas só consegue balbuciar reticências.

E, talvez, esse diário seja o único lugar onde essas palavras não me interrompem. 

Na dúvida,  vale olhar a vida de um lugar mais mole, onde o mundo ainda te espanta.

É nisso que acredito: na arte como um convite para desarmar os olhos. Pra abrir uma fresta. 

Eu sigo tentando. Me expondo aos poucos. Escrevendo como quem reaprende a falar. E aceitando que o silêncio, às vezes, também é uma resposta bonita.

Com afeto, Beatriz da Terra. 

P.S.: Mais uma página compartilhada do diário da artista visual Beatriz da Terra. Arte e vulnerabilidade. Texto escrito na beira da fogueira acesa ainda antes do anoitecer. Frio na alma e na Serra de Santana.

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