Meu cérebro costuma fazer conexões que me perturbam. Pode ser maravilhoso uma vez ou outra, mas em regra a inquietude é complicada de sentir. Hoje foi um desses dias em que a arte ajudou a assentar tudo.
A manhã começou despretensiosa e rotineira, lendo a newsletter do NEXO. E fui parar em um texto maravilhoso da Regina Souza Cintra intitulado “Como construir cidades que abraçam as infâncias” (https://www.nexojornal.com.br/espacos-publicos-para-criancas-infancia-na-cidade).
Enquanto lia sobre sua pesquisa, ia passando um mapa afetivo das cidades que já visitei, pensando em como meus próprios filhos ocupam o espaço público, revivendo em minhas células as experiências que tive na infância, matutando o que poderia ser feito pelo chão em que piso e chorando pelo impacto imposto pelas desigualdades das cidades que crescem e se tornam cada vez mais hostis.

Lembrei de um curso sobre “ética e cidadania na infância” que fiz e tenho minhas dúvidas se consegui usar em alguma coisa. Lembro que há pouco tempo li em Revista da PUC sobre essa desigualdade em territórios, mas, nesse caso, minha memória não vai muito além de saber que tem mais crianças em cidades do que no campo. E que estas cidades sofrem problemas muito parecidos ao redor do mundo (deslocamento, poluição, insegurança em todos os sentidos).
Pensar na infância violada dói demais.

A reviravolta se deu ao meio dia, quando visitei a exposição “Caravela dos Sonhos”, da artista Adriana Prado, no Museu Nacional da República. Me emocionei e muito ao adentrar aquela instalação. Como pode um trabalho tão delicado e leve ser tão forte, arrebatador e transformador? Obrigada, Drika. Você mudou tudo aqui dentro e lá fora.

Conheça um pouquinho do projeto pelo texto da própria artista, porque sou incapaz de falar qualquer outra palavra:
“O Projeto Caravela dos Sonhos faz parte de um projeto ainda maior, o Projeto Um Sopro de Liberdade, concebido em 2013. Desse modo, a Caravela dos Sonhos é um fragmento de um amplo serviço educativo destinado, especialmente, a jovens em medida socioeducativa de internação. (…) Nesta edição, abraçamos oito unidades de internação do Distrito Federal, com um total de aproximadamente 210 jovens privados de liberdade. O objetivo do projeto é utilizar a Arte e o Patrimônio como ferramentas para provocar a transmutação do pensamento infrator, viabilizar sonhos e desejos, estimular pensamentos benévolos, bem como instigar que os anseios desses jovens alcem voos inimagináveis. Ao longo do serviço educativo, a audiência participa de diversas atividades e confecciona tsurus – dobraduras de origami em formato de pássaro. Segundo a lenda japonesa, a cada tsuru dobrado faz-se um pedido e, ao dobrar mil tsurus, os pedidos são realizados. Aqui, no Projeto Caravela dos Sonhos, milhares e milhares de tsurus foram dobrados, logo, os pedidos, os desejos e os sonhos dos jovens podem ser realizados e desejamos que os sejam”.
É isso. Termino meu dia com o desejo irrevogável de dobrar tsurus pelo meu chão ceco, pelo meu pedaço de cerrado e pelas crianças das comunidades que me tangem.




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