Brasília, 30 de março de 2026

por Beatriz da Terra

Participar do Grupo de Pesquisa Sistemas da Arte 2026, sob coordenação da Pilastra, tem provocado uma reviravolta na rotina solitária que essa artista autodidata aqui leva no ateliê. O acesso a uma bibliografia bem direcionada fez com que autores prestigiados no mundo acadêmico deixassem de ser referência distante para ser presença. 

Saí do encontro realizado dia 26 de março com a sensação de que não estava mais sozinha dentro da minha própria cabeça. Como se, de repente, outras vozes começassem a falar junto comigo. Reconhecimento, pertencimento, piração total e ainda digerindo tanto conhecimento e sem saber ao certo o que fazer com tudo isso. Meu mais íntimo isolamento já tinha sido previsto. Nada mudou.

“Você não está fora do sistema. Você está dentro de um campo.” A frase veio seca, quase como diagnóstico. “E dentro desse campo, tudo é disputa: reconhecimento, legitimidade, valor.” Eu tentei argumentar, dizer que só queria fazer meu trabalho, viver dele, existir com alguma dignidade. Mas Pierre Bourdieu continuou: “O problema é achar que isso depende apenas de você.” Fiquei em silêncio. Talvez eu tenha passado tempo demais sonhando sozinha.

Mais tarde, outra voz ecoou: “As obras não pertencem mais ao lugar onde nasceram.” Olhei ao redor do meu ateliê. Barro, ferramentas, restos de folhas secas. “Elas passam a habitar um museu sem paredes. Um imaginário que reorganiza tudo.”  E mais: “O que você vê como ausência, talvez seja uma exclusão silenciosa.” Era a voz de André Malraux me provocando um leve desconforto. Fiquei pensando no meu trabalho tentando atravessar um portal que não reconhece sua matéria. 

Outra presença se insinuou. Mais concreta. Quase política. “Uma imagem nunca é só uma imagem. Ela é um encontro. E todo encontro envolve relações de poder”. Parei. Senti um leve aperto. Uma forma de violência? “Sim. Porque ver e ser visto são direitos distribuídos de forma desigual”, disse Ariella Azoulay.

Eh… Talvez o problema nunca tenha sido apenas a visibilidade. Mas permissão. 

Sozinha no ateliê, com as mãos no barro, uma voz mais paciente apareceu. Quase didática. Era Howard Becker: “Você insiste em pensar que faz isso sozinha, mas uma obra só existe porque muitas pessoas, atividades e sistemas a tornam possível.” Realidade dura de ouvir… Logo eu que tenho zero habilidades sociais e preciso fazer um esforço imenso para me manter funcional.  “A arte é uma atividade coletiva, mesmo quando parece solitária”, destacou.

Respirei fundo. Pior, no fim, parece que a fragilidade recai sempre sobre quem cria.

Água avançando sobre a margem como se não reconhecesse os limites impostos. E, pela primeira vez, não tentei me separar disso. Percebi que talvez eu também seja esse lugar de atravessamento. Um ponto onde essas vozes se encontram.

Bourdieu me lembra da estrutura.

Malraux me lembra da circulação.

Azoulay me lembra da responsabilidade do olhar.

Becker me lembra que preciso circular, encontrar a minha matilha.

E eu continuo aqui, tentando não secar entre uma margem e outra. Lidando com os meus pânicos de sair de casa. Construindo um imaginário onde, talvez, consiga existir em coletividade (sem me autodestruir).

Existe um alívio estranho em saber que tudo isso já foi pensado. Até a profecia de que artista vai precisar ter um segundo emprego para pagar as contas já tinha sido declarada decadas atrás por esses franceses.

Mas também é um tipo de vertigem.

Porque se já foi dito, significa que essa engrenagem em movimento muito antes de mim não vai parar facilmente. Não sei se tenho fôlego para subir nesse vagão. Mas, definitivamente, algo mudou. Não porque o sistema ficou mais leve, mas porque, pela primeira vez, eu consegui me ver dentro dele sem desaparecer completamente.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MALRAUX, André. O museu imaginário. Lisboa: Edições 70, 2000.

AZOULAY, Ariella. The civil contract of photography. New York: Zone Books, 2008.

BECKER, Howard S. Mundos da arte. Lisboa: Livros Horizonte, 2010.

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