Entre a distopia e a utopia, na Cachoeira Veredas, invento uma memória em que o feminino vence e a natureza goza

De volta para o futuro. Não tenho certeza sobre o ano ou destino da humanidade, mas a natureza está mais forte do que nunca. Todo sinal da exploração que já houve aqui um dia foi destruído pela força da água e do tempo.

Não tem mais escadarias, pontes, restos de obras, nem tintas que marcam agressões, tudo isso foi levado. Venceu a força feminina. Brilha a água forte, cujo barulho da queda ensurdece. Seu fervilhar parece mar agitado, com ondas que arrastam. Paredões rochosos que se abrem de forma imponente, uma fenda no tempo.

Ateliê de Temporada

Ainda lembro que lá em janeiro de 2023 visitei a cachoeira Veredas, em Cavalcante-GO. À época, no meu Ateliê de Temporada, estava em busca da rara espécie Flor de Triz.

Bem que eu gostaria de saber se a Flor de Triz está atrás daquele véu. Acredito que esteja, mas não tem como chegar lá. Seus majestosos 90 metros fazem a cabeça explodir.

Fiquei extasiada pela potência do lugar, vibrar a força daquelas águas foi empoderador. Me senti parte daquela natureza de forma mágica e transformadora. A pressão e o som da água naquela fenda era como um gozo da mãe terra, inebriante.

Ao mesmo tempo, senti meu feminino destruído e explorado com enorme crueldade. A natureza é feminina e – assim como as mulheres – explorada até a última gota de vida.

As pessoas tinham passos apressados sobre a trilha suspensa de metal e madeira. Uma construção humana extremamente agressiva àquela paisagem. Zero contemplação e muita corrida por um clique no fim da ponte – foto que eu também fiz. O que fez com que me sentisse pior, parte daquele sistema hostil. Eu estava ali. Não flutuando na natureza, mas sustentada pela sua dor.

Eu entendo que tudo aquilo permitiu que eu e muitas outras pessoas pudessem chegar lá. Mas a que preço? Pra que mais uma cachoeira?

A natureza não está desafiando ninguém. Talvez alguns lugares devam, simplesmente, permanecer intocados.

Em estado de residência

Meu amado companheiro P. vive este Ateliê de Temporada junto comigo. Em estado de residência, nos inspiramos mutuamente.

A cachoeira Veredas, com toda sua potência feminina, é uma das inspirações dos trabalhos que ele está executando aqui. Impossível não se impactar pela paisagem e pela arte.

Assim que ele permitir, quero falar mais sobre. Por enquanto, uma breve anotação de que estamos respirando e caminhando juntos.

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